Quero nascer!

Era uma vez… Casos de constelação.

No episódio de hoje, uma jovem em busca de seu caminho.

Uma moça gostaria de fazer algumas mudanças em sua vida, mas se sentia insegura. Algo a informava de uma insatisfação com sua situação atual, que se configurou, em boa parte, em razão da opinião de sua família.

Sua constelação se configurou com toda sua família a cercando de cuidados, sugerindo uma superproteção, e ela presa, como que acuada, naquele semicírculo: a família se posicionou como se fosse uma corda em seu entorno, e ela sem conseguir passagem para ir para sua vida.

Foi possível ela se apropriar da importância do autoposicionamento, tal qual um feto que, já formado, sente que não cabe naquele útero, que já não está adequado ao seu tamanho, então ele não sabe o que virá depois, sente muito medo, mas tem certeza de que continuar ali não é uma opção. Ele se posiciona e começa a forçar a saída, e assim se dá o parto normal.

O que dificulta uma pessoa a se posicionar para ir para sua vida?

Possivelmente uma questão de pertencimento. Tomar a própria vida e, com ela, as próprias decisões, pode custar muitas coisas, inclusive a segurança do pertencimento. Pode ser que a família se oponha, critique, rotule e até mesmo, em casos mais extremos, exclua. Como tudo que é vivo, não temos como antever o resultado de forma matemática.

O que nos ajuda nesse processo? Menciono 2 fatores:

  1. A intencionalidade: saber pontuar exatamente o motivo que nos leva a tomar uma decisão.
  2. Os resultados: avaliar se o que vem depois é positivo ou negativo. E ainda, se for negativo, se estamos diante de um contrafluxo natural de quem muda a rota, ou se tropeçamos na intencionalidade incorretamente mensurada.

Nos exercícios sistêmicos essa jovem pôde fechar os olhos, ver à sua frente seus irmãos mais velhos, seu pai, sua mãe, e atrás deles, seus avôs, suas avós, e dizer a todos, olhando mentalmente nos olhos de cada um:

_ Eu vejo vocês. Eu vejo a dor de vocês. Sinto muito por nossas brigas, por todas as vezes que julguei ser excluída, pelas vezes que julguei não ser vista quando, na verdade, era eu quem não via vocês. Eu agora tomo toda vida que vocês me deram, agora eu vou fazer o melhor que eu puder com ela.

Em especial com sua mãe, ela disse:

_ Senti muito sua falta, senti muito desamparo, e agora compreendo nossa realidade, e por isso tomo a vida que você me deu e me autorizo a tomar as minhas decisões. Peço que me olhe com carinho se eu fizer um pouco diferente.

Aos irmãos mais velhos ela pôde dizer:

_ Eu imagino como tenha sido difícil assumir papeis que não lhes cabiam. Eu agora os libero desse encargo e tomo minha vida e as minhas decisões, e peço que me olhem com carinho se eu fizer um pouco diferente.

Tal qual o bebê que chora ao nascer, diante da imensidão à sua volta, ela pôde chorar como quem não faz ideia do que fazer com o mundo que se abre à sua frente. São muitas possibilidades. São todas as possibilidades. Então os bonequinhos foram se afastando e a passagem se abriu, e ela olhou para sua vida e seguiu em frente.

O que te impede de (re)nascer?

Maria esteves

Deixa comigo!

Era uma vez… Casos de constelação.

No episódio de hoje, uma primogênita que assumiu o encargo de ser mãe de suas irmãs.

Uma primogênita se questionava se, na relação com suas irmãs, havia algo que ela poderia fazer para dividir o cuidado com seus pais com estas irmãs. Na constelação ela viu como havia assumido, durante toda a vida, o papel de mãe de suas irmãs, revelando a infração à lei da hierarquia.

Em tese, teria mais sentido que o irmão ou a irmã caçula ficasse responsável pelos pais idosos. Isso porque como último ou última a chegar, foi quem mais recebeu dos pais e dos irmãos mais velhos. Entretanto qualquer inversão desses papéis custa um preço, ou seja, não é que tenha que ser necessariamente assim, mas na prática das constelações foi o que se observou ser o melhor para o sistema.

Nesta situação cabe refletir: Por que uma primogênita assume o lugar da mãe em relação às irmãs? Nesse caso em específico foi possível observar como a mãe não estava presente emocionalmente para olhar para primogênita e para as demais filhas.

Na relação entre irmãos é interessante observar que, se por um lado a primogênita quer pertencer e por isso assume essa responsabilidade como forma de ser incluída, as irmãs mais novas, ao não terem a presença emocional da mãe, olham para essa irmã mais velha como referência. Entretanto também é importante observar que essa irmã mais velha, além de lidar com suas próprias questões em relação à sua mãe, ainda precisa lidar com as suas questões em relação aos irmãos ou irmãs mais novos, uma vez que também pode haver um sentimento de que a atenção que ela recebia dos pais, ainda que escassa, possa diminuir em razão da chegada dos irmãos mais novos.

Logo, a irmã ou irmão quando mais velho, por mais maduro que consiga ser – porque assim a circunstância da vida o obrigou – não terá a maturidade emocional necessária para cuidar de seu irmão ou irmã caçula adequadamente, ou seja, assumir esse papel é pesado, fazendo com que a pessoa tenha constantemente essa sensação de não ser bom o suficiente. Por outro lado é importante observar se há por parte da primogênita uma certa competição com sua mãe, ou do primogênito uma certa competição com seu pai, como se achasse que é melhor mãe ou pai das suas irmãs ou de seus irmãos, do que a própria mãe ou pai, o que é um grande equívoco. 

Ao perceber isso, essa primogênita pôde olhar para sua família e enfim dizer:

  • Querida mamãe, eu vejo você. Você fez muita falta, foi muito difícil me tornar mãe das minhas irmãs, foi muito difícil achar que eu precisava substituir você. Agora eu compreendo que eu não tive o seu apoio e não terei. Vejo a sua dor e honro a sua história, e agora eu deixo essa dor com você, e peço que me olhe com carinho se eu resolver, agora, fazer um pouco diferente, se eu não mais assumir esse encargo de ser mãe das minhas irmãs. Eu me autorizo a voltar para o meu lugar.
  • Queridas irmãs, eu vejo vocês e vejo a dor de vocês. Sinto muito que a mamãe não tenha sido mais presente, e reconheço que não cabia a mim assumir esse lugar. Por isso peço que me olhem com carinho se, a partir de hoje, eu tomar o meu lugar de irmã mais velha.

Liberta desse encargo que não lhe cabia, ela pôde voltar ao seu lugar e sentir mais leveza.

Ver a mãe e as irmãs significa permitir que cada uma assuma seu lugar, suas dores e seus destinos. Significa permitir que o outro exista

Você vê todas as pessoas do seu sistema?

Maria esteves

3 renúncias para a paz

“Em última instância, toda paz exige alguma renúncia”. 

Bert Hellinger, Conflito e Paz, p. 21.

Com essa frase Bert encerra o tópico chamado “A compreensão”, no qual trata de possibilidades mais pacíficas de solução de conflitos. Aproveito aqui para enumerar algumas renúncias básicas em busca de paz.

Primeiro, menciono a renúncia ao controle. Querer controlar os fatos a todo tempo é, no mínimo, não ter ideia do nosso lugar. Como seres humanos servimos a um propósito maior, que é a vida, que por ser viva, está em constante transformação. Nesse sentido o atributo da adaptabilidade é bem mais pertinente do que o controle. O que queremos controlar, afinal? Se chove, ou se faz sol, a atitude alheia, mas não conseguimos nem controlar nossas próprias atitudes o tempo todo – isso quando ao menos refletimos sobre elas, sobre os valores que nos orientam ou sobre os objetivos que nos movem.

Segundo, menciono a renúncia à certeza. Há inúmeras verdades que não estão ao nosso alcance, mesmo com a aplicação do método científico ou com a aplicação de dogmas, há um teto e um chão para nosso conhecimento. Desde que temos registros buscamos conhecer, e tentamos de alguma forma transmitir esse conhecimento, mas estamos a todo tempo conhecendo mais. Conhecemos à medida que incluímos, e incluímos à medida que conhecemos. Esse é o motor do pertencimento, o qual buscamos tanto. E um bom senso mínimo nos permite admitir que – talvez – não tenhamos conhecimento de todos os fatos que nos permitam sobrepairar uma situação, e podemos estar errados, de alguma forma.

Terceiro, menciono a renúncia ao orgulho. Manter-se num posicionamento somente por orgulho é algo que não vejo sentido algum. Como ser humano sou imperfeita, estou em constante evolução, aprendendo e em busca de ser hoje melhor que ontem. Então, se preciso for, qual seria o problema em abrir mão de uma convicção? O orgulho. Aquele que nos faz querer ter todas as respostas, o tempo todo, sobre tudo, e não nos permite reconhecer nossa vulnerabilidade e a possibilidade que temos de fazer escolhas, digamos, “pouco acertadas”… Ou seja, errar mesmo.

Como você continuaria essa lista? Em qual ordem de prioridade?

Ao que você renuncia(ria) para ter paz? 

Sua causa, minha causa

Era uma vez… Casos de constelação.

No episódio de hoje, uma neta representando as dores de sua avó.

Uma moça se questionava sobre sua vida afetiva: Por que não consigo encontrar alguém legal? Por que nenhum relacionamento funciona bem? Então ela resolveu fazer uma Constelação.

Na Constelação ela se deu conta do quanto estava conectada às dores da sua avó materna. Essa figura tão importante em sua vida, que foi uma grande fonte de amor, havia sofrido muitas dores de violência doméstica e nada pôde fazer quando viu seu marido rejeitar sua filha.

E ainda essa avó, tão cara, tão querida, faleceu quando sua neta estava longe de casa, e ela não teve nem mesmo tempo de se despedir. Não teve como comparecer a esse momento de luto e acabou não chorando o tanto que ela precisaria chorar a perda – e as dores – dessa avó.

A neta foi convidada a refletir sobre como ela olhava para esse avô, que em alguma medida era uma referência masculina, e o efeito desse olhar na forma como ela olhava os homens.

Os homens não eram legais ou ela não os olhava com bons olhos?

E o luto não vivido, o quanto de morte fomentava nessa neta?

Em um gesto de reconciliação essa neta pôde, então, dizer:

  • Vovó, sinto muito sua falta, sinto muito não estar por perto no momento da sua partida;
  • Vovó, eu vejo você, vejo sua dor, respeito suas escolhas e honro a sua história;
  • Vovó, o vovô era o marido que a senhora escolheu e a senhora era a esposa que ele escolheu, então eu me autorizo a escolher o meu marido;
  • Vovó, sinto muito por sua partida, por isso eu vou fazer o melhor que eu puder com a minha vida, e quando chegar o momento, eu a encontrarei.

Ela encontrou então, dentro de si, a dor de sua avó, e pôde enfim chorar o que sua avó não conseguiu.

E então ela pôde se despedir, se voltar para sua vida e se conectar com outras pessoas, e com essas novas pessoas, encontrar um parceiro bom para ela.

Suas causas são realmente suas?

Maria esteves

Ofendido ou Ofensor?

“Quando necessitam de aliados num conflito, eles se associam contra um inimigo externo comum, intensificando assim o seu intercâmbio e a coesão mútua”. 

Bert Hellinger, Conflito e Paz, p. 20.

Após avaliar os grandes conflitos, Bert inicia a busca de saídas, a busca da grande paz. Ressalta o casamento como junção de famílias, bem como o intercâmbio entre dar e receber recíproco que faz grupos se unirem, aumentando suas chances de sobrevivência. 

É interessante imaginar que grupos em constante conflito possam se unir diante da ameaça de inimigo externo, ou seja, o inimigo externo acaba por contribuir para a pacificação entre grupos que inicialmente conflitavam. Há ou não uma sensação de que o conflito é apenas uma mania, algo como um vício? Pois quando isso acontece parece que não importa o oponente, o que importa é a oposição

É como se fosse o conflito de estimação: o meu inimigo, aquela inimizade que faço questão de fomentar. Mas contra o meu inimigo ninguém há de se virar, afinal o inimigo é meu

Faz algum sentido? A mim parece que não. Se já passei por situações assim? Diversas vezes. 

Em algumas percebi o quanto a inimizade dizia sobre mim, a quantidade de sentimentos destrutivos que eu guardava e alimentava por aquela pessoa, a ponto de qualquer atitude sua me irritar profundamente. Não foi fácil, mas ao reconhecer isso pude então ter outro olhar, e quando a outra parte veio fomentar o conflito, aquela velha inimiga não estava mais ali, e foi nítido perceber como isso desestabilizava aquela pessoa – que era até então oponente. Foi gratificante poder usar minha energia para construir projetos melhores do que fomentar uma inimizade. Hoje lembro com carinho e certo lamento por ter perdido a oportunidade de conhecer melhor pessoas que poderiam talvez me agregar mais do que me agregaram – porque a partir dessa mudança de percepção pude melhorar muito como pessoa. Então talvez elas tenham me ensinado até mais sobre mim, e de forma mais autêntica, do que algumas amizades.  

Opositores podem nos ajudar em alguma medida a enxergar riscos, a antever problemas, mas é importante que, à medida do possível, aprofundemos o real motivo que nos leva a fomentar uma inimizade. Quanto estamos ganhando ou perdendo com isso? O quanto esse conflito é real ou imaginário? Não será o momento de trocar o oponente? Queremos de fato nos manter conectados com alguém pela raiva? Afinal… Se o amor une, o ódio ata.  

Quais inimigos você cultiva? O que eles dizem sobre você? 

Zelo Cego

– Quem se retira da multidão dos exaltados e volta à razão não colabora mais com o grande conflito, mas corre o perigo de voltar contra si os exaltados, como se fosse um traidor, porque já não tem a boa consciência dos demais -.

Bert Hellinger, Conflito e Paz, p. 19.

Aqui Bert trata sobre o zelo cego, ou amor cego, que é o amor infantil decorrente da necessidade de pertencimento, que faz a pessoa ignorar a existência do outro (do diferente) como ser humano e instrumentalizar quem e o que for preciso para pertencer e manter a boa consciência, inclusive a si mesmo.

Ele pontua que caso não haja o devido amadurecimento emocional, mesmo quando adulto uma pessoa pode se ver na situação de defender uma causa cegamente, ou quando assume a má consciência, que seria a culpa de agir de forma diferente daquela que o grupo espera, ainda há a possibilidade de ser visto como traidor e se tornar vítima desse conflito de consciências.

Podemos refletir que se uma pessoa, até então, reforçava a minha convicção de certo e errado, e hoje ela resolve agir de forma diferente e me diz que o que eu acredito que é certo, na verdade não é, há a chance de eu contestá-la e questioná-la. Depende do quanto eu tenho necessidade de controlar o outro.

É preciso ficar atento que há um movimento natural nos grupos de considerar aquele que começa a pensar diferente como traidor e, por isso, é importante cuidar das relações quando nós queremos que o vínculo se dilua, pois não sabemos o quanto de dor ou de necessidade de controle podemos despertar no outro. Daí a importância de deixar o tempo agir, para que essa expectativa possa ser abrandada, sob pena de nos tornarmos vítimas dessa situação.

Uma vez que a pessoa que faz uma mudança compreende e acolhe esse contrafluxo, é possível então haver recomposição. No momento em que a pessoa se torna vítima desse zelo cego (ou desse amor cego) que faz o grupo instrumentalizar seja quem for em prol de uma convicção de certo e errado, ele passa a ser um cúmplice que se tornou traidor – ou vítima. Então, há algumas opções, dentre elas a de voltar ao comportamento anterior e recuperar a boa consciência (ficar na sensação de inocência para garantir o seu pertencimento), ou se manter posicionado na mudança, com a compreensão de que em algum momento será possível dar um passo rumo à recomposição com o grupo. Mas para que ele possa dar esse passo para a recomposição, precisará permanecer bem e posicionado quanto à nova compreensão de que aquilo que o grupo entende que é correto, ele já não compreende mais. Isso demanda tempo, e a recomposição será no sentido de talvez começar um movimento, quando o grupo puder verificar que houve uma mudança.

Dificilmente isso acontecerá por imposição ou convencimento, quando acontecer será a partir do exemplo, quando o grupo puder perceber que a partir daquele posicionamento a pessoa teve mais ganhos do que perdas. Eu, que sempre conheci a pessoa de determinada forma e quero que ela mantenha a lealdade ao grupo, aproveitarei todas as oportunidades para testá-la. Somente o tempo e a firmeza de posicionamento me fará aceitar que quem conheci, com o posicionamento anterior, já não está mais ali. Então poderá haver uma interação sadia, a ponto de um não querer mais convencer o outro de que de sua noção de certo e errado é a melhor.

E quem precisa fazer essa escolha? Quem resolveu mudar, ciente de que sua mudança causará o contrafluxo do grupo que tentará mantê-lo reforçando aquelas mesmas noções de certo e errado. Então será possível a coexistência de pensamentos diferentes, dentro do limite do que é bom para todos. Pode ser que manter uma distância segura a ambos seja a melhor opção por muito tempo.

Ao mudar de opinião e se ver vitimado, você opta pela recomposição ou renuncia à mudança?

Ônus e Bônus

Qual é, portanto, o grande conflito? É o conflito entre a boa consciência e a má consciência. Daí nascem os conflitos mais implacáveis entre os grupos e dentro da própria alma. 

Bert Hellinger, Conflito e Paz, p. 18.

Bert aqui ressalta como vivenciamos os conflitos entre a “boa” consciência, a que permite a manutenção do pertencimento, e a “má” consciência que gera a oposição do grupo e o receio de exclusão. 

Quando temos necessidade de sobrevivência, não há que se questionar em querer pertencer, pois desse pertencimento depende a nossa vida. Entretanto, à medida em que amadurecemos, interagimos com outros grupos e começamos a questionar: comportamentos, condutas, tendências, até mesmo a moralidade dos grupos aos quais pertencemos. Eventualmente nos questionamos: será que não é possível fazer diferente? Será que há algo além disso? Então apresenta-se com mais clareza a “má” consciência, tão conhecida como “culpa”. 

Ser adulto engloba saber lidar com a culpa de se permitir questionar, ainda que isso coloque em risco o nosso pertencimento. À medida que conseguimos lidar com a culpa começamos um processo de autorresponsabilidade e protagonismo da própria vida. Entretanto, se não conseguimos lidar com a culpa, mantemos o conhecido, aquilo que sabidamente garantirá nosso pertencimento, que é a inocência. Ou pagamos o preço da “culpa” de contrariar o já conhecido comportamento, ou pagamos o preço de nos obrigar a fazer sempre o que esperam de nós.  

Portanto ser adulto é aprender a conviver com o conflito entre a “boa” consciência – a que garante o pertencimento – e a “má” consciência, aquela que nos convida a novas possibilidades. 

Como você lida com o ônus e o bônus de fazer escolhas? 

Poder de exclusão e inclusão

“Em seu estudo sobre as projeções, Freud fala também de um outro tipo de transferência, pela qual combatemos numa outra pessoa aquilo que rejeitamos e negamos em nós mesmos”.

Bert Hellinger, Conflito e Paz, p. 17.

Bert fala aqui sobre como nós internalizamos o que rejeitamos, ou seja, tudo o que excluímos, e como isso repetidamente volta à nossa vida, mediante o mecanismo de projeção. Ou seja, enquanto a gente não vê, não olha, isso reaparece na nossa vida das mais diversas formas. 

Muitos conflitos se iniciam, conforme ensina a teoria de Marshall Rosenberg – a Comunicação Não Violenta -, quando em nossa fala julgamos o outro. É importante ter uma fala menos julgadora e trazer para nós mesmos a responsabilidade do que nós percebemos dos fatos e como nos sentimos com as situações.  

Na mediação também há a técnica da “Mensagem Eu”, na qual o mediador deve ter o cuidado de passar a síntese da situação pontuando que é a forma como ele vê o conflito, com frases tais como “Eu percebo” ou “Eu entendi”, e também da inversão da voz passiva para a voz ativa, ou seja, trazendo a responsabilidade para o sujeito que fala, tal como a diferença entre dizer: “Ela é feia” ou dizer: “Eu não me sinto atraída pela aparência dela”. Quando eu digo que eu não me sinto atraída, eu estou trazendo a responsabilidade para mim, no sentido de dizer que, para meus padrões, eu não me sinto atraída. Diferente de julgar a aparência da pessoa, quase que numa condenação – pois dizer que uma pessoa é também é diferente de dizer que ela está, ou seja, não só julgo como a pessoa se apresenta num determinado momento mas também sentencio perpetuamente aquela impressão que tive. Enquanto isso, outra pessoa terá uma percepção totalmente diferente, o que demonstra que há uma diferença entre o que se vê e o que realmente é.

Há um filtro entre essas duas realidades, formado por todo nosso arcabouço de crenças e experiências, que quando digo o que o outro é, desisto da oportunidade de verificar o quanto meu filtro atrapalha minha percepção. 

O que pode nos ajudar nesse processo de ampliação do que se percebe é analisar, na nossa fala, o quanto a gente fala atribuindo responsabilidade ao outro e o quanto nós conseguimos perceber isso e trazer a responsabilidade para nós mesmos. Esse seria um primeiro passo para começarmos um trabalho interno de verificar o que nós gostamos e o que nós rejeitamos no outro, pois há um conteúdo meu que me faz gostar ou não gostar de algo. Esse seria um primeiro passo para assumir a sua parte de responsabilidade no conflito e considerar a existência de pontos cegos que só conseguimos enxergar quando se apresenta no outro.  

Se eu pensar no que o outro é, o outro é o outro, e então não me aprofundo no quanto estou contribuindo para um conflito. E se eu acho que estou sempre certa, muitas vezes nem um Estado-julgador poderá me ajudar. Porque se ele me disser que estou errada, seguirei excluindo e acusando, achando que o problema é sempre dos outros, num esvaziamento total do meu poder de agir e melhorar as relações ao meu redor.  

E você, o quanto entrega seu poder aos outros?

Mudanças

“Tudo que abala as tradições é sentido como ameaça, tanto pela consciência individual quanto pela consciência de grupo, se é que podemos diferenciar as duas. […] O que é novo ameaça a coesão desse grupo e, consequentemente, a sobrevivência dele em sua forma atual. Pois quando um grupo abre espaço ao novo, ele precisa reorganizar-se para não se dissolver”.

Bert Hellinger, Conflito e Paz, p. 16.

Hoje começo fazendo referência a uma frase conhecidamente atribuída a Heráclito:

Nada é permanente, exceto a mudança.

A vida, para ser viva, precisa ser fluida, obedecer a um fluxo, o que requer que os grupos estejam em constante reorganização. Ou seja, um grupo, da forma como conhecido, repetidamente deixará de existir, o que requer sua readaptação.

O maior desafio é que essas mudanças, no íntimo do indivíduo, nem sempre acontecem acompanhando o fluxo da vida. Muitas vezes queremos controlar a vida, não queremos que ela aconteça no seu ritmo. Muitas vezes um grupo de indivíduos dentro de um grupo precisa de mais tempo ainda para se reorganizar, para se adaptar à mudança. Então começa o conflito entre o status quo e o porvir. O momento presente é a tensão entre o tradicional e o contemporâneo, o conhecido e o novo.

No Direito, uma obra clássica que nos ajuda a entender bem esse movimento vital é A Luta pelo Direito (1872), de Rudolf von Ihering (1818-1892).

Bert ressalta a precaução que os indivíduos que aceitam a mudança antes, primeiro que os demais, devem ter em não se precipitarem ao assumir escolhas diferentes perante o grupo. No episódio anterior vimos que o comportamento diferente pode ser entendido como errado pelo grupo. Podemos lembrar de muitos e muitas à frente de seu tempo, que foram perseguidos ou perseguidas, por conta de uma nova forma de pensar. O grupo rechaçava a ideia e entendeu a conduta de tais indivíduos como ameaçadora à sobrevivência do grupo – ainda que o inovador não tivesse qualquer intenção de ameaça.

Logo, quando o grupo rechaça uma nova ideia e o indivíduo que a acolhe age como mártir, poderá enfrentar o medo que o grupo tem de se dissolver, e ir contra tal instinto de sobrevivência. Ressalte-se que não se quer aqui justificar ou valorar uma ou outra conduta, a intenção é compreender o conflito que se instaura entre quem acolhe o novo e aqueles que o rechaçam. O indivíduo que acolhe a mudança precisa identificar o melhor momento para se posicionar e, se preciso, acolher também a oposição, como parte do processo de mudança.

Tal conflito é um processo externo, do indivíduo em relação ao grupo, mas também interno, quando nós mesmos nos deparamos com uma mudança e sentimos esse conflito, uma parte quer acolher e seguir o fluxo da vida e a outra quer controlar, quer permanecer, ficar no que já conhece, e sente medo, sente-se ameaçado em dar esse passo rumo ao futuro, ao desconhecido.

Você acolhe as mudanças? Quando o faz, observa e identifica o momento adequado para defendê-las?